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Tel Aviv, Teerã e a parábola da cegueira

Como o apoio evangélico brasileiro à Israel expõe uma teologia do delírio, ignora os mortos da Palestina e silencia diante dos direitos que diz defender Por Antônio Barbosa , sociólogo. Há algo de litúrgico, e ao mesmo tempo grotesco, no modo como parte das lideranças evangélicas brasileiras carregam a bandeira de Israel. Em cultos televisionados, peregrinações em grupo, redes sociais e discursos de púlpito travestidos de fala parlamentar, Israel se tornou mais que um país: tornou-se o altar de uma fé transbordante de símbolos e vazia de história. Não é o Estado concreto, com sua sociedade plural, suas instituições democráticas em erosão e sua política militar expansionista, que mobiliza tais fiéis — mas sim a imagem mitificada de uma Jerusalém profética, onde se encenaria o clímax escatológico do juízo final. A devoção, contudo, escapa a qualquer coerência com a realidade. Israel, ainda que sob crescentes tensões institucionais internas, é um país onde mulheres servem nas Forças Armad...

A ordem é desobedecer: Sueli Rodrigues e os sujeitos desconstitucionalizados

  Por Antônio Gomes Barbosa, sociólogo Maria Sueli Rodrigues de Sousa, jurista, socióloga e pensadora piauiense, construiu um dos aportes mais singulares do constitucionalismo crítico brasileiro contemporâneo. Sua trajetória não foi apenas acadêmica: foi também vivida, partilhada e forjada no chão do sertão do Piauí, entre comunidades tradicionais, territórios camponeses, escolas e movimentos sociais. Sua obra se articula por uma epistemologia da convivência, em que o direito se constitui a partir das experiências populares, das memórias compartilhadas e dos afetos politicamente organizados. Sueli cunhou a expressão “ sujeitos desconstitucionalizados ” para expressar uma contradição fundante da ordem jurídica brasileira: a distância entre o texto constitucional — inclusivo e formalmente democrático — e a persistente exclusão de povos e comunidades que, mesmo reconhecidos em normas, seguem desprovidos de direitos efetivos. Em Vivências constituintes: sujeitos desconstitucionalizad...

Na encruzilhada do mundo: Reexistência como forma de futuro

Por Antônio Gomes Barbosa, sociólogo. “ Não somos resistentes. Somos reexistentes .”  A afirmação de Nêgo Bispo, pensador quilombola do Piauí, é mais do que uma provocação política — é uma chave epistemológica. Em vez de reagir às estruturas coloniais com o desejo de inclusão, Bispo propõe a continuidade de mundos que seguem vivos apesar da colonização. Em cada roda de conversa em uma farinhada, em cada mutirão de roçado, nas trocas entre parteiras, raizeiras e agricultores experimentadores, algo se move fora do mapa: são práticas ancestrais que sustentam mundos inteiros. E entre esses mundos, o pensamento de Bispo se ergue como uma teoria viva — uma teoria de mato, de encruzilhada e de autonomia. Sua obra não pede passagem: finca território. Ao longo de décadas, Antonio Bispo dos Santos elaborou categorias próprias, como “contra-colonização”, “transfluência”, “confluência de saberes” e “cosmofobia”, que hoje atravessam debates acadêmicos. Em Colonização, Quilombos: modos e signifi...

Francisco, o Papa que falou também aos que não creem

 Antonio Barbosa, sociólogo  (texto publicado em 21 de abril, de 2025) Hoje, o mundo se despede de uma de suas vozes mais profundas e desafiadoras: Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, morreu. Com ele, vai embora não apenas o primeiro Papa latino-americano da história, mas também uma das figuras éticas e políticas mais influentes do século XXI. Não sou crente. Não cresci na fé, nem busquei respostas na religião. Mas sei reconhecer a dignidade, a coerência e a coragem. E Francisco foi, para mim — e para milhões dentro e fora da Igreja —, uma referência moral em tempos de confusão global. Desde o início de seu pontificado, escolheu um nome que era um manifesto: Francisco, como o santo de Assis, símbolo de humildade, proximidade com os pobres e comunhão com a natureza. Esse gesto não foi pequeno: foi uma virada simbólica e política. E o que veio depois confirmou esse caminho. Francisco incomodou. Incomodou os setores mais conservadores da Igreja com sua abordagem pastoral abe...

O Brasil está perdendo a Fé — Ou está apenas mudando de Deus?

Por Antônio Gomes Barbosa, sociólogo e agnóstico .  Em 1980, apenas 1,6 milhão de brasileiros diziam não ter religião. Eram pouco mais de 1% da população e quase sempre tratados como exceções urbanas, desvios acadêmicos ou ateus assumidos. Quarenta anos depois, esse grupo passou a incluir mais de 19 milhões de pessoas, 9,3% dos brasileiros, segundo o Censo de 2022. E não para de crescer. No Chuí, extremo sul do país, já são maioria. Em cidades amazônicas como Atalaia do Norte, chegam perto disso. O que está acontecendo com a fé no país do sincretismo e do “em nome de Jesus”?  A queda do catolicismo é o dado mais ruidoso. De 95% da população em 1940, os católicos recuaram a pouco mais da metade. Já não são a religião do Estado, nem do povo. Os evangélicos, por outro lado, têm avançado com vigor: representavam 6,6% da população em 1980; hoje, são quase 27%. Mas mesmo entre os evangélicos o crescimento parece estar se estabilizando. A curva que mais chama atenção agora é outra: a...