Francisco, o Papa que falou também aos que não creem
Antonio Barbosa, sociólogo
(texto publicado em 21 de abril, de 2025)
Hoje, o mundo se despede de uma de suas vozes mais profundas e desafiadoras: Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, morreu. Com ele, vai embora não apenas o primeiro Papa latino-americano da história, mas também uma das figuras éticas e políticas mais influentes do século XXI.
Não sou crente. Não cresci na fé, nem busquei respostas na religião. Mas sei reconhecer a dignidade, a coerência e a coragem. E Francisco foi, para mim — e para milhões dentro e fora da Igreja —, uma referência moral em tempos de confusão global.
Desde o início de seu pontificado, escolheu um nome que era um manifesto: Francisco, como o santo de Assis, símbolo de humildade, proximidade com os pobres e comunhão com a natureza. Esse gesto não foi pequeno: foi uma virada simbólica e política. E o que veio depois confirmou esse caminho.
Francisco incomodou. Incomodou os setores mais conservadores da Igreja com sua abordagem pastoral aberta e sua defesa do diálogo inter-religioso. Incomodou os poderes econômicos ao denunciar “a economia que mata”, os “ídolos do dinheiro” e a especulação financeira como formas modernas de idolatria. Incomodou os indiferentes ao convocar uma “revolução da ternura”.
Mas além das palavras, ele agiu. Com a Economia de Francisco, convocou jovens economistas, ativistas sociais, camponeses e acadêmicos para pensar coletivamente uma alternativa ao capitalismo predatório. Propôs uma economia a serviço da vida, do bem comum, da justiça climática e da dignidade do trabalho. Recuperou princípios esquecidos pelos tecnocratas: solidariedade, reciprocidade, limites ecológicos e espiritualidade encarnada.
E seu compromisso não nasceu em Roma, mas em Buenos Aires. Nos anos duros da ditadura argentina, foi testemunha de desaparecimentos, repressão e medo. Seu vínculo com a juíza e defensora dos direitos humanos Alicia Oliveira — amiga íntima, ameaçada pelos militares — marcou sua biografia. Ele a protegeu, ajudou-a a se esconder, e esse vínculo atravessou sua visão de poder, sofrimento e justiça.
Não foi perfeito. Nenhuma figura histórica é. Mas foi corajoso. E num mundo que premia a omissão e pune a honestidade, essa coragem foi um farol.
Hoje, Francisco deixa um vazio real. Sua partida é sentida não só entre católicos, mas também entre os que, como eu, não compartilham sua fé — mas sim sua aposta ética. Porque sua mensagem ultrapassou os muros do Vaticano. Ele falou à humanidade. E em meio a uma era de múltiplas crises — climática, social, espiritual — ofereceu algo raro e valioso: esperança com compromisso.
Vai-se o Papa que escolheu viver numa residência simples, que viajava leve, que preferia os nomes próprios aos títulos. Vai-se o Papa que colocou os descartados no centro. Que fez da ecologia uma questão teológica. Que denunciou as guerras e pediu o desarmamento. Que recebeu refugiados, abraçou migrantes, escutou os povos indígenas e defendeu a Amazônia como pulmão sagrado do planeta.
Mas ele não se vai por completo. Seu legado está semeado na história. Em cada jovem que ousa sonhar com uma nova economia. Em cada comunidade que resiste desde baixo. Em cada gesto de cuidado diante da cultura do descarte. Em cada pequena semente que brota onde outros só veem números ou resíduos.
Hoje, choramos sua morte. Mas também celebramos sua vida. Porque, num mundo de cinismo, ele escolheu a compaixão. Num tempo de muros, ele insistiu em portas abertas.
Obrigado, Francisco. Por ter falado também com os que não criam. Por nos lembrar de que a política pode ser serviço. Que a Igreja pode ser humana. E que outro mundo, mesmo desde Roma, pode ser imaginado.
21 de abril de 2025Recife, Pernambuco, Brasil
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