Tel Aviv, Teerã e a parábola da cegueira
Como o apoio evangélico brasileiro à Israel expõe uma teologia do delírio, ignora os mortos da Palestina e silencia diante dos direitos que diz defender
Por Antônio Barbosa, sociólogo.
Há algo de litúrgico, e ao mesmo tempo grotesco, no modo como parte das lideranças evangélicas brasileiras carregam a bandeira de Israel. Em cultos televisionados, peregrinações em grupo, redes sociais e discursos de púlpito travestidos de fala parlamentar, Israel se tornou mais que um país: tornou-se o altar de uma fé transbordante de símbolos e vazia de história. Não é o Estado concreto, com sua sociedade plural, suas instituições democráticas em erosão e sua política militar expansionista, que mobiliza tais fiéis — mas sim a imagem mitificada de uma Jerusalém profética, onde se encenaria o clímax escatológico do juízo final.
A devoção, contudo, escapa a qualquer coerência com a realidade. Israel, ainda que sob crescentes tensões institucionais internas, é um país onde mulheres servem nas Forças Armadas, o aborto é legalizado sob determinadas condições, pessoas LGBTQIA+ têm direitos civis reconhecidos, a ciência é ensinada sem concessões ao criacionismo e a cannabis medicinal é amplamente utilizada no sistema de saúde. Em Tel Aviv, desfila-se o orgulho gay — com apoio do poder público — enquanto em Brasília se luta contra qualquer referência à diversidade nas escolas. Os evangélicos que veneram Israel combatem, no Brasil, exatamente os direitos que o país garante aos seus cidadãos.
Mas a incoerência não para aí. O Irã, apresentado nesses círculos como o grande vilão — símbolo do mal e da idolatria islâmica — é, paradoxalmente, o espelho onde se projetam os desejos de parte do conservadorismo religioso brasileiro: uma teocracia rígida, com religião oficial, moral sexual regulada pelo Estado, perseguição a minorias e punição à dissidência. O clero iraniano é aquilo que muitos líderes cristãos, com palavras mais brandas, gostariam de ser. O que os separa, afinal, é o nome do deus — não o projeto de poder.
O que está em curso é mais que uma contradição: é a operação de uma teologia do delírio, que reduz conflitos geopolíticos a batalhas celestiais entre o bem e o mal. Nessa narrativa, Israel é o bastião da luz, o Irã é o eixo do mal, e os palestinos são meros figurantes na batalha espiritual — quando não acusados de serem a própria encarnação do inimigo. Ao fazer isso, essas lideranças apagam o direito à existência do povo palestino e naturalizam o massacre em curso como parte do plano divino.
E o massacre, de fato, existe. Desde o início da ofensiva de Israel sobre Gaza em outubro de 2023, mais de 50 mil palestinos foram mortos, segundo registros cruzados de agências internacionais e dados do Ministério da Saúde de Gaza. A maioria são civis — e, entre eles, milhares de crianças. O que se vê nas imagens que escapam do bloqueio israelense é a devastação de bairros inteiros, hospitais reduzidos a escombros, escolas em ruínas, pais enterrando filhos. Não se trata de confronto militar. Trata-se de punição coletiva. Trata-se de um extermínio social de um povo que não tem onde se esconder, nem para onde fugir.
Diante desse horror, a voz do Papa Francisco se ergueu com clareza moral. Em homilias, cartas e pronunciamentos internacionais, o pontífice afirmou, sem ambiguidade, que a guerra é uma derrota da humanidade. Clamou pelo reconhecimento do Estado Palestino, denunciou os massacres em Gaza e afirmou que a segurança de Israel só será verdadeira se for acompanhada pela justiça para os palestinos. “Parem, por favor! Parem!” — suplicou em outubro, diante de líderes globais, repetindo o gesto de Bento XVI, que em 2009 visitou o campo de refugiados de Aida, na Cisjordânia ocupada, e chamou os palestinos de "povo digno, ainda sem pátria".
Em outro tom, mas com firmeza semelhante, o presidente Lula tem mantido uma posição justa e necessária. Ao denunciar a matança de civis em Gaza, exigir o cumprimento do direito internacional e reafirmar o direito do povo palestino à soberania, Lula não rompe com Israel — rompe com a lógica da guerra. Sua fala, que irritou os ultranacionalistas de plantão, colocou o Brasil em sintonia com a tradição diplomática que sempre defendeu soluções multilaterais, mediação, coexistência e paz. Ser solidário ao povo palestino não significa ser inimigo de Israel. Significa recusar a barbárie como método.
Do outro lado, o silêncio cúmplice das igrejas midiáticas evangélicas no Brasil é ensurdecedor. Em nome de uma “aliança espiritual” com Israel, calam diante da morte de crianças, da destruição de hospitais, da negação de um povo ao seu território. Não há lamento, nem clamor. Não há humanidade. O povo palestino é tornado invisível, como se não merecesse sequer o direito à dor. Como se sua vida, por não ser parte da narrativa da salvação, não fosse digna de luto.
Esse silenciamento é agravado por um apagamento histórico deliberado: os mesmos setores que hoje se dizem “irmãos” dos judeus parecem ignorar — ou querer esquecer — que por séculos o cristianismo perseguiu, expulsou, humilhou e matou judeus em nome da fé. Das Cruzadas à Inquisição, dos guetos à cumplicidade com o Holocausto, o antissemitismo cristão fez do povo judeu bode expiatório da história ocidental. A súbita filiação espiritual com Israel, promovida por pastores que citam o Antigo Testamento mas ignoram o sofrimento real, parece menos um gesto de reconciliação e mais um oportunismo escatológico.
Ao recusar essas incoerências, não se trata de negar o direito de Israel existir com segurança, tampouco de ignorar o terrorismo do Hamas, que também mata civis e manipula o sofrimento alheio. Trata-se de afirmar que dois povos têm direito à vida, à terra e ao futuro. Israel e Palestina, como Estados soberanos. Judeus e palestinos, como povos livres. Da mesma forma, trata-se de reconhecer que o povo iraniano — ainda que governado por uma teocracia opressora — tem direito à autodeterminação, à cultura, à vida sem sanções nem bombardeios.
O que se deve combater são as ditaduras, o fanatismo, a lógica da dominação. Não os povos. Defender o Irã não é apoiar seus clérigos. Defender a Palestina não é apoiar o Hamas. Defender Israel não é apoiar o apartheid. É possível — e necessário — dizer “não” a todos os senhores da guerra e, ao mesmo tempo, afirmar o “sim” dos que lutam pela dignidade.
O povo brasileiro, que abriga em sua própria carne a mistura de raças, religiões e tragédias, tem autoridade moral para se colocar do lado da paz. O cristianismo que vale a pena — o que lava os pés dos outros, o que partilha o pão — não pode se calar diante do sangue. Que a fé, se há de ser pública, que seja ponte. Nunca muro.
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