O Brasil está perdendo a Fé — Ou está apenas mudando de Deus?

Por Antônio Gomes Barbosa, sociólogo e agnóstico . 

Em 1980, apenas 1,6 milhão de brasileiros diziam não ter religião. Eram pouco mais de 1% da população e quase sempre tratados como exceções urbanas, desvios acadêmicos ou ateus assumidos. Quarenta anos depois, esse grupo passou a incluir mais de 19 milhões de pessoas, 9,3% dos brasileiros, segundo o Censo de 2022. E não para de crescer. No Chuí, extremo sul do país, já são maioria. Em cidades amazônicas como Atalaia do Norte, chegam perto disso. O que está acontecendo com a fé no país do sincretismo e do “em nome de Jesus”? 

A queda do catolicismo é o dado mais ruidoso. De 95% da população em 1940, os católicos recuaram a pouco mais da metade. Já não são a religião do Estado, nem do povo. Os evangélicos, por outro lado, têm avançado com vigor: representavam 6,6% da população em 1980; hoje, são quase 27%. Mas mesmo entre os evangélicos o crescimento parece estar se estabilizando. A curva que mais chama atenção agora é outra: a dos que, perguntados sobre sua religião, respondem: nenhuma. 

Mas o que significa esse “nenhuma”? 

Muitos não se declaram ateus ou agnósticos. Apenas se dizem fora das igrejas, fora dos cultos, fora das estruturas religiosas institucionalizadas. São jovens, em sua maioria. Homens, sobretudo. Urbanos, conectados, críticos. Mas também há mães solo, indígenas, ribeirinhos, universitários periféricos. E há uma diferença fundamental entre não ter religião e não ter espiritualidade — que talvez os censos ainda não saibam captar. Em tempos de aplicativos de meditação e vídeos sobre o “poder da gratidão”, parece mais fácil renunciar a Deus do que a alguma forma de sentido. 

Falo como sociólogo, mas também como alguém que se identifica com essa experiência: agnóstico num país onde se espera que todos tenham uma fé explícita, e onde a ausência dela ainda é tratada com estranhamento. Para muitos de nós, o afastamento das religiões não é uma negação do mistério, mas um modo próprio de habitá-lo — sem dogmas, sem doutrina, sem a pretensão de resposta definitiva. Uma forma de fé sem templo. 

O Brasil, talvez, esteja vivendo algo parecido com o que aconteceu na Europa nas últimas décadas. Na França, mais de 60% dos jovens não seguem nenhuma religião. Na Suécia, a fé institucional mal sobrevive fora dos registros de nascimento. Mesmo em países como Chile e Uruguai, mais próximos culturalmente do Brasil, o fenômeno é visível: quase 40% dos uruguaios e 38% dos chilenos são "sem religião". 
Mas há uma diferença. Na Europa, a laicidade foi uma conquista contra o poder político da Igreja. Na América Latina, o vínculo entre religião e política se transformou em simbiose. No Brasil contemporâneo, não é incomum ver pastores se elegendo com discursos militares, e líderes católicos se aliando a plataformas conservadoras. Quando a religião se torna palanque, não espanta que muitos optem por descer do altar. 

Essa rejeição às religiões pode ser lida, então, como um ato de resistência. Mas também pode ser sinal de esvaziamento, de apatia, de desconfiança generalizada. Afinal, os mesmos jovens que rejeitam as igrejas parecem aceitar gurus digitais, influencers de energia quântica e doutrinas de algoritmo. Deixamos os templos, mas seguimos buscando sentido — nem sempre onde ele pode ser encontrado. 

Há algo profundamente brasileiro nesse movimento. Um país fundado por padres e marcado por terreiros, cultos e promessas agora assiste a uma reorganização silenciosa do sagrado. A fé, que sempre foi pública, comunitária, ensurdecedora, agora se faz privada, fragmentada, quase sussurrada. Trocar a missa pelo mantra, o culto pelo coaching ou o altar pela tela do celular é um ato de fé contemporâneo. 

E, como toda fé, também revela uma angústia. Talvez o Brasil não esteja perdendo a fé. 
Talvez esteja apenas mudando de lugar para procurá-la. E talvez isso também seja sagrado.

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