Entre Lula e Milei, o Brasil terá de decidir qual projeto de país deseja seguir

 

Antonio Gomes Barbosa, sociólogo.

A América do Sul voltou a entrar em uma de suas curvas históricas. E talvez a comparação mais reveladora deste momento esteja justamente nos caminhos escolhidos por Brasil e Argentina. Não se trata apenas da velha alternância entre governos de esquerda e direita, como frequentemente simplificam os debates televisivos ou o mercado financeiro. O que está em disputa é algo mais profundo: dois projetos distintos de Estado, de desenvolvimento e de sociedade.

Durante décadas, o continente viveu sob forte tutela econômica e ideológica dos Estados Unidos, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do chamado Consenso de Washington. As ditaduras militares das décadas de 1960 e 1970 — muitas delas apoiadas pela geopolítica norte-americana da Guerra Fria — abriram espaço para experiências radicais de liberalização econômica. O Chile de Augusto Pinochet tornou-se o laboratório mais emblemático daquele ciclo neoliberal ainda nos anos 1970.

Nos anos 1990, praticamente toda a América Latina embarcou na mesma direção: privatizações em larga escala, abertura comercial acelerada, flexibilização trabalhista, austeridade fiscal e redução do papel do Estado. A promessa era simples: estabilidade, crescimento e modernização.

Mas a história não entregou exatamente o que havia sido prometido.

Os próprios estudos da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL, 2010; 2014) passaram posteriormente a demonstrar os limites daquele modelo. Embora parte dos países tenha conseguido estabilizar a inflação, a região aprofundou desigualdades, ampliou a dependência financeira, acelerou processos de desindustrialização e manteve enorme vulnerabilidade externa.

A América do Sul de hoje já não reproduz automaticamente aquele consenso liberal dos anos 1990. Existe memória histórica acumulada. Existe produção intelectual própria. Existe experiência concreta dos custos sociais produzidos tanto pelo neoliberalismo extremo quanto pelos próprios limites dos ciclos progressistas.

É justamente nesse cenário que Brasil e Argentina se transformam quase em espelhos invertidos.

De um lado, o Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva tenta reconstruir uma estratégia baseada na recuperação parcial do papel do Estado como indutor do crescimento econômico e da proteção social. De outro, a Argentina de Javier Milei aposta num choque liberal agressivo, sustentado pela ideia de que o Estado se tornou o principal problema econômico do país.

Os resultados começam a aparecer — e também os custos.

O desempenho econômico brasileiro foi melhor do que grande parte do mercado financeiro previa. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2025). Ao mesmo tempo, o desemprego caiu para cerca de 6,6% em 2024, um dos menores índices da série histórica recente do IBGE (2025). O crescimento foi puxado principalmente pelo consumo das famílias, pela recuperação do emprego e pela ampliação da circulação de renda.

O centro dessa estratégia foi a retomada das políticas sociais.

O Programa Bolsa Família voltou a atender mais de 20 milhões de famílias, com benefício médio superior a R$ 680 em 2025, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS, 2025). O governo também retomou o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), ampliou o Programa Farmácia Popular, valorizou o salário mínimo acima da inflação, recompôs parcialmente o orçamento das universidades federais e reajustou bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) após anos de congelamento.

Na saúde, o orçamento federal ultrapassou R$ 230 bilhões em 2024, permitindo a retomada do Programa Mais Médicos e das campanhas nacionais de vacinação, segundo o Ministério da Saúde (2024).

O dado mais simbólico foi o anúncio de que o Brasil saiu novamente do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2025. Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO, 2025) indicaram que o percentual de brasileiros em situação de subalimentação crônica caiu para menos de 2,5% da população. Entre 2022 e 2025, cerca de 24 milhões de brasileiros deixaram situações graves de insegurança alimentar, segundo estimativas da FAO (2025) e do IBGE (2025).

Nada disso significa que o país tenha resolvido seus problemas estruturais.

O Brasil continua convivendo com juros reais extremamente elevados, baixa produtividade industrial, dependência excessiva do consumo interno e enorme pressão sobre as contas públicas. Durante longo período, a taxa básica de juros (Selic) permaneceu acima de 10%, muito distante dos padrões internacionais, favorecendo a financeirização da economia e limitando investimentos produtivos, conforme dados do Banco Central do Brasil (2024).

Ainda assim, o governo Lula parte de uma premissa relativamente simples: crescimento econômico, proteção social, combate à fome, valorização do trabalho e investimento público precisam caminhar juntos.

Na Argentina, Javier Milei escolheu a direção oposta.

Seu governo implementou um ajuste liberal radical baseado em cortes de gastos públicos, retirada de subsídios, desregulação econômica e austeridade fiscal acelerada. O argumento central era de que o país havia chegado a um desequilíbrio insustentável. Quando Milei assumiu, a inflação anual argentina já ultrapassava 200%, enquanto a inflação mensal chegou perto de 25% em dezembro de 2023, segundo o Instituto Nacional de Estadística y Censos da Argentina (INDEC, 2024).

O choque produziu efeitos rápidos na macroeconomia. Em 2025, a inflação mensal argentina caiu para patamares próximos de 2% a 3%, enquanto o governo passou a registrar superávit fiscal primário, conforme dados do INDEC (2025) e do Ministério da Economia da Argentina (2025).

Mas a estabilização veio acompanhada de um custo social brutal.

A pobreza argentina saltou para 52,9% da população no primeiro semestre de 2024, segundo dados oficiais do INDEC (2024). Tarifas de energia, transporte, aluguel e alimentação dispararam após os cortes de subsídios. A indústria voltada ao mercado interno sofreu forte retração. Universidades públicas e centros de pesquisa como o Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET) enfrentaram cortes severos em seus orçamentos.

Posteriormente, com a desaceleração da inflação, alguns indicadores começaram a melhorar. Em 2025, a pobreza caiu para patamares próximos de 31%, ainda muito elevados, mas abaixo do pico registrado no primeiro ano do ajuste, segundo estimativas do INDEC (2025).

Os defensores de Milei afirmam que o choque era inevitável diante da profundidade da crise herdada. Seus críticos respondem que a estabilização ocorreu ao custo de uma deterioração social gigantesca e de uma fragilização profunda do sistema público argentino.

No fundo, Brasil e Argentina recolocam uma velha pergunta latino-americana: qual deve ser o papel do Estado no desenvolvimento?

Milei sustenta que estabilidade monetária, austeridade fiscal e redução do Estado precisam vir antes de qualquer política distributiva mais ampla. Lula aposta na ideia de que desenvolvimento econômico e proteção social não são opostos inevitáveis.

O problema é que parte do debate brasileiro continua preso a um falso dilema.

Responsabilidade fiscal é necessária. Controle da inflação também. Nenhum país consegue estabilidade econômica duradoura convivendo com inflação descontrolada ou colapso fiscal. Mas transformar responsabilidade fiscal em justificativa permanente para desmontar políticas sociais e bloquear investimentos públicos estratégicos é outra coisa completamente diferente.

O objetivo central de qualquer economia deveria ser o bem-estar coletivo.

E o Brasil ainda evita enfrentar uma de suas maiores distorções estruturais: a desigualdade tributária.

O sistema tributário brasileiro continua sendo profundamente regressivo. Os mais pobres pagam proporcionalmente mais impostos porque grande parte da arrecadação vem do consumo. Enquanto isso, dividendos permanecem historicamente pouco tributados, heranças possuem baixa taxação, patrimônios são pouco alcançados e grandes fortunas praticamente escapam do sistema.

Isso contrasta diretamente com boa parte das economias desenvolvidas.

Nos Estados Unidos, a alíquota federal sobre renda chega a 37% para altas faixas salariais, além de tributos estaduais e impostos sobre ganhos de capital, segundo o Internal Revenue Service (IRS, 2025). Diversos países europeus mantêm mecanismos de tributação patrimonial ou sobre riqueza, como Noruega, Espanha, Suíça e França. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, 2024) demonstra que economias desenvolvidas combinam tributação progressiva, impostos sobre herança, taxação de dividendos e cobrança patrimonial.

Defender taxação de grandes fortunas não é radicalismo. É algo relativamente comum nas economias capitalistas avançadas.

O Brasil precisa discutir seriamente tributação de dividendos, revisão de benefícios fiscais regressivos, imposto sobre grandes patrimônios e redução da carga sobre consumo e trabalho. Não parece razoável que trabalhadores paguem imposto diretamente na folha salarial enquanto grandes fortunas utilizam mecanismos sofisticados de blindagem patrimonial e tributária.

Nesse sentido, a experiência argentina também funciona como um espelho do possível futuro brasileiro.

Durante o governo Jair Bolsonaro, o então ministro da Economia Paulo Guedes já defendia privatizações amplas, retração do Estado, contenção de gastos sociais e ajuste fiscal permanente. A Argentina de Milei oferece hoje um exemplo concreto dos possíveis efeitos de um aprofundamento desse modelo: redução mais rápida da inflação e maior contenção fiscal, mas também retração do consumo, explosão inicial da pobreza, fragilização das universidades públicas e deterioração social no curto prazo.

O Brasil chegou a uma encruzilhada.

Precisa, ao mesmo tempo, de responsabilidade fiscal, inflação controlada, juros mais baixos e equilíbrio macroeconômico. Mas também necessita combater desigualdades históricas, fortalecer o sistema público de saúde, investir em ciência, proteger universidades, reduzir a fome e reconstruir sua capacidade industrial.

Nenhuma democracia consegue se sustentar indefinidamente convivendo com desigualdade extrema e insegurança social permanente.

A América do Sul já conheceu os efeitos do neoliberalismo radical. Também já experimentou os acertos e limites dos ciclos progressistas. Talvez o verdadeiro desafio agora seja construir algo mais sofisticado: economias fiscalmente responsáveis, mas comprometidas com dignidade social; Estados eficientes, mas não submetidos à lógica do mercado; crescimento econômico que não exista separado da vida concreta da população.

No fim das contas, a discussão entre Brasil e Argentina é maior do que parece.

Ela ajuda a responder uma pergunta central do século XXI: que tipo de civilização queremos construir?

Comentários

  1. Antônio Gomes Barbosa é um sociólogo e articulista que se destaca por sua escrita crítica, reflexiva e profundamente comprometida com as questões sociais da América Latina. Seus textos transitam entre política, desigualdade, direitos sociais, cultura popular e pensamento decolonial, sempre buscando revelar as estruturas invisíveis que moldam a sociedade. Com linguagem densa e ao mesmo tempo acessível, o autor transforma análises sociológicas em provocações intelectuais sobre democracia, justiça social e reexistência dos povos historicamente marginalizados. Sua produção evidencia sensibilidade humanista e forte preocupação com os rumos políticos e civilizatórios do Brasil contemporâneo.
    Tenho imenso orgulho de ser sua irmã. Sua inteligência, sensibilidade social e compromisso com a verdade fazem de sua escrita uma voz necessária em tempos tão difíceis. Cada texto revela não apenas o sociólogo brilhante que você é, mas também o ser humano ético, consciente e profundamente comprometido com a dignidade das pessoas. Ver seu pensamento alcançar tantas reflexões me enche de admiração, carinho e orgulho.

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